Pontos de encontro

Ser sublime é cantar a morte
com a agonia de quem vive
em harmonia.

*

Meu tempo já passou.
A tristeza bate a porta
mas prefiro continuar sentado
tomando café enquanto os mortos me vigiam da sacada
e o presente segura a minha mão.

*

O olho
piscou
e perdeu a simplicidade complexa cotidiana que só a menina escutando música  [enquanto se distrai com o céu do Rio consegue imaginar.

*

Angústia é sentir-se completo na incompletude.

*

Penso em uma maneira de dizer ao mundo que…
Tolice!
O mundo não precisa de mais asneiras ao pé do ouvido.

Letargia

Amo-te!
A morte
Anoitece.
A noite
Amortisa.
Amo-te
Da noite
À morte.

De volta pra casa

Tudo passa
o tempo todo
o tempo
passa

Um passo
pas-sa-ro-tem-pes-pa-ço
Visão borrada
A via expressa
lá no céu
no espaço
havia pressa

Lá fora o espelho atrasa o passado
por um segundo
o presente sorri
e então passou

Isolada a mente devagar
cansada de mentir e
de vagar
olha pra frente
pensando
d i  v   a    g     a      n       d        o
ruindo…
“O porVIR é grande demais”

Conheser

Como quem sai do ventre assim cuspida,
nasceu uma palavra.
E cuspida, mas não comprada, nem cumprida,
foi andar
a dar de conheser o mundo.

Saiu de dia e encontrou a luz
do sol
do homem
encontrou o vazio das pressas
e presas preocupadas
com o tempo
encontrou o ostracismo
por pouco tempo.

Então adentrou à noite
do medo
saiu
e não encontrou nada.
Foi encontrada
iluminada e imaginada de luz própria
enquanto o mundo dormia
e sonhava solitária mente.

E na imaginação do mundo,
onde o dia é espera, a noite é cama e a madrugada é trégua,
a palavra se fez
sozinha,
sem pontos nem vírgulas
nem contos que pudessem escravizá-la.
Se fez na gentileza do muro,
no duro da rua.

Então os olhos se abriram
e a palavra foi morta
pela morte do sonho
pela morte da arte
pela morte da alma.

Conheserá?

O ontem e o hoje: Lima Barreto e a Copa/Olimpíada

Os jornais se assanham em considerações por que se verifica uma diminuição na frequencia escolar das escolas públicas municipais desta cidade.

A tal respeito, eu conversei com meu amigo Domingo Magarinos, a quem, há dias ça va sans dire) eu vi cobrindo com um guarda-sol uma adjunta, naturalmente gentil, na rua em que moro e onde há uma escola pública.

Magarinos, como muitas outras pessoas, inclusive o meu simpático Chateaubriand de Caxangá, é sabido em pedagogia; mas nada. O meu caro de Magarinos, nada me quis dizer a respeito.

Por minha conta, pus-me a pensar. Digo eu: tudo está caro. Botas, chitas, chapéus, tamancos custam os cabelos da cabeça. A municipalidade não dá mais livros, nem lápis, nem cadernos – não dá nada! Como é que os pobres pais pobres, ganhando o que mal dá pra comer e orar, poderão arcar com as pequenas despesas da mantença de seus filhos e filhas no colégio primário? Não podem.

A municipalidade não pode ir em auxílio dos pais nesse caso que é de benefício geral; mas pode votar verbas para bobagens de festanças venezianas que não interessam senão a meia dúzia de cabotinos e a outros paspalhões.

Senhores (as),

esta pequena crônica é de Lima Barreto, e foi escrita em 1920 para a revista Careta. Nesta mesma cidade do Rio de Janeiro, há 91 anos atrás, Lima preocupava-se, suburbanamente diga-se, com a prefeitura, que solenemente cagava para os pobres, enquanto gastava-se com coisas que interessavam a alguns, principalmente àqueles que iriam lucrar com isto.

Se tudo isto soou como se fosse hoje, nada mais é que a prova de que a história só não se repete quando há ruptura; neste caso, não houve. A mesma vem sendo contada/desenhada/escrita há muito.

Ontem a festa de Veneza a brasileira; hoje a Copa e as Olimpíadas. E sempre, a exclusão elitista dos pobres.

Nada mudou…

Depois do outdoor, Silas Malafaia e o trízimo

Senhor Pastor Silas Malafaia,

o senhor luta, utilizando o ódio e a raiva, tanto nas ações, pensamentos, quanto na postura e na fala, para convencer o mundo de que Deus sente ódio por parte de seus filhos , simplesmente por serem homossexuais; o senhor criou um império, que conta com canal de televisão, rádio, programas na TV aberta, “filiais” pelo mundo e outras tantas coisas. O senhor junta milhares de pessoas para que, em nome de Deus, a humanidade, Sua obra por excelência, seja dividida por sentimentos baixos e repugnantes. Por conta disto, por exemplo, pastor, um ser humano foi empalado (prática de tortura que remonta a Inquisição medieval) em seu local de trabalho, sob a desculpa de uma brincadeira por ele ser homossexual. Pastor, não tenho as mesmas crenças que o senhor e não sou homossexual. Mas acredito em um Deus e tenho certeza de que ele ama a todos. TODOS!

Entendo, pastor , que as pessoas que o procuram estão de alguma forma desesperadas ou desgostosas da vida. Que as pessoas que vão até o senhor estão procurando soluções para problemas imediatos. E que a igreja que o senhor comanda não promove quase nenhuma reflexão espiritual sobre si mesmo e sobre o mundo, ficando apenas nas questões morais e moralistas.

Mas sinceramente, pastor! Cobrar dinheiro de quem não tem por serviços que inclusive não podem nem ser taxados em nota fiscal?! Cobrar por uma coisa que não é o senhor que faz, mas sim o Senhor que faz?!

Sinceramente, senhor pastor, em nome de todos os que abominam o senhor e que entendem que o Senhor é amor, e não grana: vai tomar no olho do seu cú!

A cura

Sara
o nosso mundo doente
não te comporta
a luz que cega os nossos olhos
e a vida que levamos aqui de fora
não são pra ti, nem para teu sorriso desconhecido

Sara
a cegueira em que os homens imergem
e as feridas abertas na boca
esperam a marca da cicatriz
e não o teu sorriso que cura a mais desumana dor

Sara
o mundo e o homem são
a chaga e o sentido
a praga e o curativo
desta vida que começa em um ventre feliz
e quiçá espalhará esta felicidade pelos céus que contigo voltarão a ser azuis como  [eram

Sara,
este mundo em que vivemos,
e que não era tão bom até ontem,
voltará a ter esperança
quando nasceres.