Os jornais se assanham em considerações por que se verifica uma diminuição na frequencia escolar das escolas públicas municipais desta cidade.
A tal respeito, eu conversei com meu amigo Domingo Magarinos, a quem, há dias ça va sans dire) eu vi cobrindo com um guarda-sol uma adjunta, naturalmente gentil, na rua em que moro e onde há uma escola pública.
Magarinos, como muitas outras pessoas, inclusive o meu simpático Chateaubriand de Caxangá, é sabido em pedagogia; mas nada. O meu caro de Magarinos, nada me quis dizer a respeito.
Por minha conta, pus-me a pensar. Digo eu: tudo está caro. Botas, chitas, chapéus, tamancos custam os cabelos da cabeça. A municipalidade não dá mais livros, nem lápis, nem cadernos – não dá nada! Como é que os pobres pais pobres, ganhando o que mal dá pra comer e orar, poderão arcar com as pequenas despesas da mantença de seus filhos e filhas no colégio primário? Não podem.
A municipalidade não pode ir em auxílio dos pais nesse caso que é de benefício geral; mas pode votar verbas para bobagens de festanças venezianas que não interessam senão a meia dúzia de cabotinos e a outros paspalhões.
Senhores (as),
esta pequena crônica é de Lima Barreto, e foi escrita em 1920 para a revista Careta. Nesta mesma cidade do Rio de Janeiro, há 91 anos atrás, Lima preocupava-se, suburbanamente diga-se, com a prefeitura, que solenemente cagava para os pobres, enquanto gastava-se com coisas que interessavam a alguns, principalmente àqueles que iriam lucrar com isto.
Se tudo isto soou como se fosse hoje, nada mais é que a prova de que a história só não se repete quando há ruptura; neste caso, não houve. A mesma vem sendo contada/desenhada/escrita há muito.
Ontem a festa de Veneza a brasileira; hoje a Copa e as Olimpíadas. E sempre, a exclusão elitista dos pobres.
Nada mudou…

