O pavor


Televisão ligada, Jornal Hoje passando (o jornal do “Tá tudo bem, gente”), entra uma reportagem pra analisar a conjuntura econômica do país com números sobre o desemprego. Uma “especialista”, daquelas que só se vê na Globo, me diz o seguinte: “Sofre-se mais num emprego ruim do que estando desempregado”.

Calma. Péra. Respira.

Deixa eu contar uma coisa pra quem tá lendo. Minha esposa talvez seja a professora de Educação Infantil mais talentosa que que já esbarrei nesses 12 anos de magistério. Trabalhava numa rede municipal do RJ, em uma escola num canto onde a população era extremamente pobre, alijada das coisas mais básicas como energia elétrica (uma penca de alunos moravam em casas com lumieiros e lampiões), água (não tinha, simples assim), saneamento básico (esgoto tinha, bem na frente de casa), saúde (pra se ter uma ideia, eles se “curavam” com ervas porque ir no postinho de saúde era inútil) etc. E portanto, a escola em que ela trabalhava experimentava as mesmas privações. Dá pra imaginar o que é trabalhar numa escola com crianças de 2 a 6 anos sem água e esgoto? Sem papel? Sem estrutura? Sem salário? Sem nada?

Ainda assim ela tentou. Mas tentou muito. Foi até onde pôde. E por ter feito isso, conseguiu uma depressão profunda, um transtorno de ansiedade, além de outras coisas que as pessoas julgam menores, como enxaqueca constante, distúrbio do sono, alergias (algumas) e otras cositas más. Mesmo com isso tudo ela insistiu e tentou mais um pouco. Até o ponto em que ela já não era ela. Ela não era mais alguém. Era um vazio imenso.

A saída foi pedir exoneração. Num país de desempregados, de informalidade, pedir exoneração de um concurso público com estabilidade era uma pressão que ela tinha medo de não aguentar.

Ela teve que buscar tratamento. Ajuda. E tudo pago por fora, porque nem pensar em tentar algo no serviço público de saúde, que se não tem gaze vai lá ter “tratamento de maluco” (ouvimos coisas assim). Pense o que é sair do emprego e ainda criar um puta gasto por causa dele mesmo…

Hoje ela está bem, se recuperando aos poucos, retomando a vida, recriando perspectivas, todas perdidas no antigo trabalho. Hoje ela sorri, coisa que eu não vi durante uns bons 2 anos. Hoje ela chora também de felicidade. Hoje ela consegue olhar pra frente, ainda que o que está atrás a assombre. E acho que nunca vai deixar de assombrar. É lidar com tudo o que aconteceu.

Alguém que diz que “é melhor estar num emprego ruim do que sem emprego” é atestar que não tem a mínima noção do que é ser educador no Brasil. Educador, profissional de saúde, profissional de segurança e todas essas áreas que o projeto neoliberal tenta há décadas desmontar. E eu nem tenho esperança de que uma pessoa dessas entenda não! Educar não é nem trabalho pra elas, é missão. É coisa bonitinha de Fantástico, com música de fundo edificante.

Ser educador no Brasil é, na verdade, trabalhar num poço de lama. É muitas vezes ser o único, em todo o processo, que se importa. É ser ameaçado, ser acusado de doutrinação, abuso de poder, desvirtuador moral, quando só o que você faz é educar. É sofrer agressão física e moral o tempo todo. O TEMPO TODO. É ver gente sem esperança e mesmo assim arranjar um pouco de esperança pra dar pra eles. Mesmo que por dentro a sua própria esperança já tenha morrido faz tempo. É trabalhar em condições tão precárias, mas tão precárias, que você adoece. E morre. Ou por dentro, ou por fora mesmo. Mas a educação no Brasil te mata. Isso é certo.

Então eu tô escrevendo isso tudo só pra dizer o seguinte: pra muita gente que enfrenta nas trincheiras pedagógicas do país esse projeto de destruição do que temos de mais humano em nós – educação, saúde, segurança, enfim, direito de ser um ser humano – é melhor sim ficar sem emprego. É ruim, muito ruim ficar sem trabalhar, mas pra essas pessoas, como a minha esposa, como um monte de colegas que eu infelizmente vi sucumbirem adoecidos(as) ou falecidos(as), é melhor lidar com o fantasma da ociosidade do que ter que entrar em sala novamente. É medo, é insegurança. É pavor. E pavor não deveria ser uma palavra associada a algo tão nobre quanto ao ato de educar. Entendam isso: o Brasil tem um projeto de educação que faz com que o professor se sinta melhor fora da sua vocação profissional do que dentro dela; a gente criou um ambiente em nível nacional que é justo o contrário do que a mulher da reportagem disse. Pra quem educa no Brasil e foi consumido por este projeto destrutivo é algo aterrorizante pensar em voltar a trabalhar em sala novamente.

Pra minha esposa, que com certeza vai ler esse post, eu queria dizer o que já disse várias vezes: você é uma heroína. Você e todas e todos que optaram por tentar melhorar este país através do magistério. É pra ter orgulho da sua trajetória, de tudo o que aconteceu e principalmente por ter vencido as tenebrosas estatísticas que assolam a nós, educadores brasileiros. Pra moça da reportagem eu tenho um monte de coisa feia e pesada entalada pra dizer, mas vou preferir dar o seguinte conselho: antes da próxima vez que você se maquiar toda pra alimentar a sua vaidade de aparecer na telinha do plim-plim, visite uma escola pública, converse com um professor entrincheirado; eu espero que você nunca passe pelo que nós passamos todo dia. E pra mim, que ainda consigo resistir, a questão é uma só: até quando?

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Eu estuprei minha filha


Quando eu nasci me disseram que eu seria o terror das mulheres.
Quando eu mamei disseram que eu tinha intimidade com a coisa, e todos riram.
Quando eu tinha 6 anos, na primeira vez que fui no estádio, eu gritei junto com meu pai chamando a juíza de piranha.
Quando eu tinha 9 anos, minha professora disse que a culpa de eu ter passado a mão na bunda da minha amiga era dela e mandou bilhete pros pais pra tomarem cuidado com o tamanho do short.
Quando eu tinha 12 anos, eu forcei o meu primeiro beijo na… Qual era o nome dela mesmo?
Quando eu tinha 15 anos, a minha primeira transa foi ótima, pra mim.
Quando eu tinha 18 anos, peguei uma mina junto com três amigos porque ela tava querendo e tava pedindo. Era só ver o jeito que ela dançava.
Quando eu tinha 20 anos, divulguei as fotos da minha ex na internet, porque a vagabunda deu prum cara lá. Ela que se foda.
Quando eu tinha 30 anos, peguei várias novinha. Elas tão tudo safada, mano. Essas novinha de hoje em dia…
Quando eu tinha 40 anos, contratei uma mina lá no trabalho gostosa pra caralho, e pra entrar ela teve que pagar um. Contei pra galera chegada e me invejaram.
Quando eu tinha 50 anos, botei a mão dentro do short da amiga da minha filha, e disse pra ela não falar pra ninguém.
Quando eu tinha 60 anos, a faculdade do meu filho chamou porque uma menina numa festa deu pra geral e foi parar na internet, e queriam dizer que meu filho estuprou ela, mas eu sou um bom pai e defendi ele abafando o caso com o reitor. Tudo pelo meu filho.
Quando eu tinha 70 anos, minha filha chegou em casa chorando. E eu não sabia o que fazer…

A educação acabou: a negação e a morte das potencialidades


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Me permitam uma reflexão (e portanto a encarem assim, e não como uma defesa, nem como justificativa; é uma reflexão).

Primeiro, à professora agredida, toda a minha solidariedade.

O menino que agride e passa a mão na professora, que estupefata e de mãos atadas, se desvia com o semblante visivelmente enfurecido ganhou as redes sociais. Sim, é um absurdo. Até posso concordar com a afirmação da diretora da escola, em sua dimensão sarcástica e imaginativa, de que “a educação acabou”. Para usar um exemplo fácil, é quase como afirmar o mesmo sobre o rock n roll: tem gente que toca guitarra por aí, mas a música foi tão tomada pelo mainstream que dizer que hoje se faz rock é algo a ser refletido primeiro. Tal qual é a educação. As dificuldades por que passam todos os envolvidos no processo educativo hoje são tão gigantescas e advém de interesses tão longe de nosso controle que posso até acreditar ser possível vislumbrar, na práxis cotidiana e de massa, o fim da educação.

Neste caso específico, a professora, quem sofre a agressão, é a personagem afetiva a que todos se ligam. Cria-se naturalmente uma polarização que começa no “agressor x agredido” e, por conta da especificidade do caso, termina em “aluno x professor”. Isto não é novo. Há pelas redes sociais vários discursos que, em comum, tem esta polarização. Um famoso é o que defende que alunos que desrespeitem o professor sejam penalizados criminalmente. Discurso fácil de ser comprado por aqueles que não refletem sobre ele; há por trás dele a indução da polarização entre “aluno x professor” sobreposta a “agressor x agredido”. E assim, todos se acham fazendo justiça. Felizes, pensam estar defendendo a Educação, com E maiúsculo, enquanto se preparam para serem pescados pelo discurso da redução da maioridade penal, prima-irmã deste que defenderam. Falsa polarização…

O que me chama a atenção no caso é que ninguém parou pra pensar no garoto. E me desculpe se esta última frase te faz sentir raiva de mim, mas sim, acho que deveríamos pensar no garoto. E por favor, se você está com os dedos prontos pra me xingar e me chamar de todos os impropérios aprendidos com Rodrigo Constantino e Raquel Sherazade (aquela do “leva pra casa”), saiba que sou educador a 11 anos, milito na educação pública desde então, estou de saco cheio de discutir por rede social, e o mais importante, todo dia, quando saio da escola, levo todos os meus alunos pra casa. Repito: o que proponho aqui é uma reflexão. Não uma defesa.

Enfim, ninguém pensou no garoto. Não sei sobre a vida pessoal dele, e não vou aqui me arriscar a tentar justificar nada, muito menos pela via do individualismo. Mas há que se considerar alguns aspectos da equação para se aferir qualquer juízo de valor sobre o caso. Ele é estudante da rede pública de Minas Gerais, uma rede que foi praticamente desmontada nos anos passados, aluno de uma cidade do interior. Pense num moleque em uma escola absolutamente sem estrutura que fica numa cidade absolutamente sem estrutura. Estrutura, aquilo que dá a dimensão axiológica do sujeito, seus valores, seus caráter. Porque, não, isto não é responsabilidade exclusiva da família. É dela também, porque o sujeito não interage só na família. É da escola, dos amigos, do trabalho. As vezes das ausências na vida: ausência de escola, de amigos, de trabalho, de família…

O quanto nós como sociedade oferecemos a este menino para agora cobrar dele alguma atitude seja ela qual for? Temos o direito de culpá-lo por esta ação, ou vamos admitir a parte que nos cabe neste estapafúrdio? Até que ponto este menino ultrapassou algum limite que demos, ou até que ponto nós escamoteamos da nossa função, enquanto sociedade, de dar o que ele merece pra desenvolver todas as suas potencialidades humanas? Porque o que vejo neste menino é uma revolta muito grande, que acaba sendo convergida pra professora. Não uma revolta contra a professora, mas uma revolta ao que ela representa. Ela é a autoridade que provavelmente (veja, sei que estou generalizando, mas coloco aqui minha experiência pessoal pra afirmar) só consegue dizer não, porque não tem mais o que dizer. Também a ela, educadora, negaram a educação. É a isto que os professores foram reduzidos: ao não autoritário. Quando deveríamos ser o sim potencializador: “Vai, menino, vai mais longe. Pode ir“! O que vejo é um menino cansado de ouvir não de quem deveria lhe dizer sim: a família, o estado, a escola (esta instituição historicamente repressora), a sociedade. Todos lhe dizem não: um não pobre, negro, jovem.

São dois negados: o aluno revoltado, e a professora, também revoltada. Ambos engendrados pelo mesmo processo: a negação da educação. Entretanto, este mesmo processo não converge as revoltas. As rivalizam. E então cria-se a mais falsa polarização de todas as que já vi em minha vida: aluno x professor. A negação da educação a inventou, de modo que o desgaste seja maior e que nos distanciemos do real problema. Somos uma sociedade negadora, e cega de sua negação. Estamos socialmente infantilizados, regredidos e respondemos de forma instintiva e emocional a tudo. Queremos a cabeça deste garoto, sem perceber que, junto, cortaremos a nossa.

Ressalto: não estou defendendo o garoto, estou propondo uma reflexão. Só é possível uma avanço no debate se abandonamos a visão turva do imediatismo emotivo e nos debruçamos sobre a racionalidade reflexiva. Dá trabalho, é mais complicado, mas é o caminho. Claro que ele deve sofrer as consequências de seu ato. Deve ser punido no que a legislação e o regulamento da escola dizem e até mesmo servir de exemplo para a inadmissibilidade do que fez. Mas provavelmente aparecerão defensores do paradigma bolsonarista: “enfia a porrada no moleque”; “eu tinha espancado”; “se a lei prendesse aos 16…”; “merda de ECA”; “tem um monte de alunos na mesma situação que não fizeram isso”… Esta meritocracia tosca não sobrevive ao argumento de que somos nós que engendramos a situação, quando negamos uma educação de qualidade a este garoto. Aliás, negamos a ele uma vida de qualidade. Nós estamos matando estes garotos e garotas todo dia, pela negação de suas vidas e potencialidades. Nós matamos a educação, todo dia. E ainda viramos os olhos pra não ver o cadáver. Deixamos ele ali, putrefato. Os urubus já estão a espreita.

UMA REFLEXÃO SOBRE A DISTÂNCIA DE NÓS MESMOS


It’s times like these
You learn to live again
It’s times like these
You give and give again

(Times like these – Foo Fighters)

Ano de 2010. As eleições eram disputadas e cruciais. O governo Lula chegava ao fim e as forças reacionárias saíam do armário. Falava-se abertamente em penas de execução, em apoio a ditadura e todas estas coisas que hoje já nos soam como trivialidades. Num curso pré-vestibular popular que trabalhava, em uma das minhas aulas em que discutia estes tempos em que vivíamos, disse uma frase banal, meio que roubada de leitura de Hannah Arendt, mas que desde então, nunca saiu da minha cabeça: “tempos interessantes e sombrios virão”. Não demoraram muito. A sombra paira sobre nós.

Tolerância foi palavra da moda. Agora discute-se respeito, um avanço na discussão. Tolerar não elimina as preceituações que geraram o distanciamento. Respeitar talvez também não, mas elimina a distância. Busca-se o convívio, a discordância amistosa e compreensiva, a aceitação do outro em sua plenitude, e assim, nos tornamos plenos. Tolerância e respeito…

Pedir tolerância e respeito se tornou o grande mantra desta geração e época. É óbvio que embates se tornam então naturais, pois se se reclama algo, é porque ele, de certa forma, não existe, e vai contra algo já estabelecido. Tolerância e respeito são valores pedidos, portanto, porque faltam em nossa sociedade. Isto diz muito de quem somos e como estamos. Estamos divididos. Entre aqueles que toleram e respeitam, e que querem espalhar estes valores para construir uma nova sociedade, e aqueles que são intolerantes e desrespeitosos, e que querem manter as coisas como estão. Este maniqueísmo tosco, claro, não diz respeito a acepções políticas ou ideológicas, mas mais a uma dimensão axiológica do indivíduo e do grupo a que pode pertencer. Toda esta conclusão é rápida e rasa, e portanto, é muito mais complexa do que um traçado lógico em algumas linhas de um texto. Mas traz uma discussão que é importante e que as vezes não pensamos: como nós lidamos com a tolerância e com o respeito?

Eu me enquadro nos que lutam por respeito e tolerância. Como professor, posso dizer sem medo que transformo minhas salas cotidianamente em espaço de militância em razão de uma sociedade melhor. Na minha vida pessoal, por mais que tente, não consigo me furtar de discussões com amigos e conhecidos quando estes dois valores são colocados em jogo. Quero e luto por tolerância e respeito. Em uma das minhas recentes discussões via redes sociais (um espaço cômodo de discussão…) me enervei. Passei dos limites éticos, morais e cometi o que na visão de muitos poderia ser considerada uma falha imperdoável: apesar de ter tomado cuidados de não citar nomes e de não direcionar a ninguém, levei a discussão a um nível que não há mais discussão, entre xingamentos e impropérios, os mesmos que a mim já foram dirigidos pela turma do “deixa como está” e que me incomodaram a ponto de cerrar o debate. Num estampido de raiva, tudo se esvai.

Após uns 3 dias me dei conta do ocorrido. Meu ato foi impensado, infantil, e acabei envolvendo mais gente do que havia inicialmente. Um desastre. Cometi o que sempre critiquei e combati: fui intolerante e desrespeitoso. Não com alguém diretamente, mas substancialmente comigo mesmo. Meu pai dizia que só o erro ensina: a melhor forma de conhecer uma cidade, por exemplo, é se perder nela; errar o caminho. Meu caminho errado estava ali. Agora faltava tentar aprender.

Fiquei o fim de semana pensando nisso. Angustiado, repreensivo de si, pensei no que tinha ocorrido. Não quero e não vou cagar regra sobre redes sociais; tem gente que já faz isso cotidianamente. Quero propor, e quem sabe alargar, a reflexão a que me impus. Qual é o limite da tolerância e do respeito? Existe algum?

Desconfio que as pequenas intolerâncias são as que causam mais impacto. São as mais difíceis de se perceber. São aquelas que ninguém sequer entende. E são aquelas que impõe um limite que não existe, que é irreal. Minha tolerância e meu respeito vão até determinado ponto: minha vaidade, meu ego, meu tempo, enfim, vão até mim mesmo. Porque no final das contas, o mundo gira ao redor de nossa individualidade. Não sei, leitor, se você há de concordar comigo até aqui, e me desculpe a sinceridade, o que busco não é sua concordância. Mas pense: quantas vezes já cortou o papo, quantas vezes já largou algum debate de lado, quantas vezes já se distanciou por oposição de ideias, credo, ideologia ou qualquer coisa que valha? A tolerância e o respeito são categorias de humanidade que geralmente se alardeiam como socialmente desejáveis. Mas penso que não inteiramente. Há uma reflexão interna que vem antes. E que parece óbvia, mas não é. Há que se refletir sobre o respeito que temos e guardamos dentro de nós mesmos. O quanto dele exercitamos? O quanto dele existe em nós?

Cobramos respeito e tolerância, militamos e lutamos por um mundo mais igual, e no fundo, com o vizinho toleramos e respeitamos tão pouco. Fechamos os olhos, cerramos os ouvidos, mudamos a direção do andor, e quanta intolerância isto também é! Impedir a diferença, seja ela qual for é intolerante e desrespeitoso. Beira a agressão, aquela que impede, de fato, qualquer relação mútua. A violência, esta sim, que vem travestida de várias vestes, impõe um limite intransponível. Esta é a que deveríamos nos calar bem alto, para que se cale em silêncio; virar os corpos e rostos para que se isole e morra de inanição. Não a diferença. E nos pequenos atos talvez não estejamos percebendo que minamos as relações tão ricas entre nós. De tão grande o mar, não percebemos que a praia também é feita de minúsculos grãos de areia.

Estamos na sombra, escura e cômoda. Tempos sombrios. Tempos em que nos distanciamos de nós mesmos. Não temos noção do que está dentro de nós. E então o que aparece pra fora, pro mundo, é o incontrolável, o caos desconhecido. Caos é potência. Temos poder e o ignoramos. É virar-se do avesso e descobri-lo.

Conselhos para quem pensa em entrar para o magistério


Eu já estou no meu 11º ano de magistério. A 11 anos atrás eu não tinha absolutamente nenhuma pista de que seria professor. Eu fui seduzido pela sala de aula. Ela vicia, sabe? É algo realmente inexplicável. Não conheço nada mais dinâmico que a sala de aula, em todas as camadas de interpretação possíveis.

O professor só envelhece se quiser. Ele lida com dezenas de mundos efervescentes em cada sala de aula. Centenas por mês. E todo ano isso muda. O tempo, para o professor, é um senhor diferente e estranho. E não é uma questão de velocidade, de duração. O tempo, pra gente, é multifacetado, é um louco correndo pela rua. É como aqueles globos da morte no circo, sabe? Uma confusão organizada e barulhenta.

A ímpeto de transformação do início de carreira não some. Quem diz isso é mentiroso. Ele sempre tá lá. Ele é, inclusive, uma condição fundamental da profissão. Professor que não quer mudar o aluno (aquele indivíduo que é um mundo em si), a escola, a educação, o mundo!, na verdade não é professor. É, talvez, um funcionário. Um técnico, que pode sim conseguir exercer muito bem a função para a qual foi contratado, segundo os parâmetros educacionais quaisquer que sejam… Mas não é um professor. A vontade de mudar é algo que nunca morre em um.

Mas esta vontade de mudar pode ser aprisionada. E frequentemente é. Há tantas maneiras de se aprisionar um professor, que um texto tolo em um blog seria ridiculamente pequeno. E eu obviamente não conseguiria escrever o tratado pedagógico necessário pra tal. Entretanto, há algumas que acho que seja imperativo de serem sinalizadas aos que começam a pensar em enveredar por tal caminho.

Minha esposa chegou chorando hoje. Veio do colégio dela e em casa, sua fortaleza, chorou muito. Nunca a vi chorar tanto, e ainda não parou. Aliás, nunca a vi tão mal. Pensa em largar tudo. Tem 28 anos, só 6 dedicados a educação, e já não consegue mais. Deixe-me explicar: não conheço ninguém tão destinado a ser professor quanto ela. Uma pessoa que sempre quis mudar a realidade merda que ela enxerga na vida dos pequeninos que a chamam de tia. Papo de aluno de 4 anos abusado pelo avô. Papo de menina rejeitada pelos pais separados e que teve a casa incendiada por um deles; quase morreu. Aliás, se você não tem estômago pra isso, pense bem.

São vidas. Vidas em potência. Tudo está ali naquele indivíduo. Tudo pode naquele indivíduo e aquele indivíduo pode tudo. Professor não aprende isso em nenhuma faculdade. Professor sabe isso. Não sei se é inato (acho meio forçoso…) ou se a vida ensina, mas professor simplesmente sabe que cada ser é um poder-ser. Eu, por exemplo, não sei dizer quando aprendi isso. Mas cada dia que passa compreendo isso mais ainda.

Minha esposa chegou no limite. Todo professor chega. Se você está pensando em tentar ser um, saiba que em algum momento da sua vida no magistério seu limite será atingido. É um momento foda. Talvez o mais difícil da vida de um educador. Porque isto acontece? Porque tudo está contra você. Ninguém liga pra ti. Ser professor deveria ser um trabalho solidário, mas a verdade é que é algo extremamente solitário. É você com você mesmo. O Jornal Nacional vai tentar regularmente te convencer que é uma profissão solidária, inclusive com exemplos de uma escola qualquer em um lugar pobre qualquer onde todo mundo sorri e é feliz; se você não é e não sorri, a culpa é sua. Mas a verdade é que você está sozinho. Toda a opressão da falência pedagógica que a gente vive vai explodir em você. Ou você entende isso, ou bem provavelmente fica no meio do caminho.

O gestor publico te abandonou. A população diz que está do teu lado, mas não te xinga do ônibus parado se você luta por uma educação melhor. Se você vai a luta, aliás, toma porrada e tiro de borracha. O Bonner não vai a sua escola perguntar como você está. Você está sozinho. Isto é algo marcante. Uma escola cheia de professores, todos maiores abandonados. O professor se defende na reclusão. É uma estratégia cruel de sobrevivência. “No meu mundo eu me realizo”. Mas isso é outra mentira. Ninguém nesse mundo se realiza sozinho. Nós nos realizamos juntos. Paulo Freire, um mestre, é o autor do axioma. Acontece que um dia o isolamento cansa. É tudo em cima de ti. Tudo. Tudo mesmo. Ninguém assume nenhuma responsabilidade, e como você sempre esteve sozinho, todas elas recaem sobre suas costas. O banheiro quebrado, a sala quente, o fracasso do aluno, a família desestruturada, o salário da categoria, o traficante que ameaça, o gestor que tá cagando… É todo mundo apontando o dedo pra você: aluno, pai, diretor, funcionário, secretário, prefeito, governador, presidente, as vezes até família. É nessa hora que o seu limite transborda.

A minha hora foi há uns 3 anos atrás. Atingi o meu limite a ponto de não querer sair de casa. Aquela minha vontade de mudar, de potencializar o que eu sabia que estava ali naquele seres, tinha sido não só aprisionada, mas torturada. Eu não via mais sentido no que eu fazia. Desistir era a única coisa que eu conseguia enxergar na minha frente, com muito choro. Meu corpo doía, fisicamente mesmo. Acho que quem não é professor talvez não conseguirá entender o que é passar por isso. É algo que marca uma vida, redireciona a personalidade, refaz a cabeça da pessoa. É uma experiência única. E continuará sendo. Todo santo dia. Todo dia seu limite é testado. Eu consegui sobreviver àquele momento a custa de ter de me refazer, ser uma outra pessoa. Tive que trocar a alma, sabe? E ainda tenho, de vez em quando. Deixei algumas coisas pra trás e consegui levantar e continuar andando. Hoje, eu tomo porrada mas eu tento sempre olhar pra dentro e ver em quem me tornei. Sou alguém melhor. Não só um professor melhor, mais apaixonado pelo que faz, mais certo de que está no lugar certo; alguém melhor. Mas tem gente que não consegue e fica pelo caminho.

A hora da minha esposa chegou ontem. É foda, cara, ver a pessoa que você mais ama no mundo assim. Tenho certeza que foi pra ela também a 3 anos atrás me ver assim. Desistir é a única coisa que ela consegue enxergar. Porque ela pensa que está só. Mas a verdade é que ela não está. Eu me recuso a deixá-la sozinha. Porque eu sei que isso passa. Basta entender que a nossa força, como professor, tá lá dentro da gente. E é essa força, comum a todo professor, que nos solidariza, que nos comunga uns aos outros. E aí, quando a gente descobre isso, lá dentro, fica fácil entender que essa hora, a hora do limite, essa hora passa. Talvez este seja o melhor conselho que eu possa deixar pra quem quer se tornar professor: tudo passa, tudo passará. Então é bom a gente parar de ficar catando pedra pra carregar nos ombros. É bom a gente reconquistar nosso lugar. É bom a gente fechar os olhos e olhar pra dentro pra descobrir a força que a gente tem pra enfrentar a luta diária. Porque na nossa frente tem um monte de vidas em potência pra serem transformadas. E nós, professores, simplesmente somos viciados nisso.

Em frente, sempre.

Para o futuro


Há que se discutir.
Há que se problematizar.
Há que se permitir
que se grite,
sem mentir.
Há que não se calar.

Nem se a porta bate.
Nem se a janela fecha.
Nem que o silêncio mate
qualquer tentativa de debate.
Há que se encontrar uma brecha.

Para o futuro.

O vento e o tempo


O vento sopra
a folha cai
lá                 longe
o vento
veio de onde?

A folha se decompõe
do vazio da terra
fica o vazio de quem?

Sopra de novo o vento
cai outra folha
na terra
só fica quem
já foi

Só vê quem já foi cego
só vai quem já ficou
o vento
de novo
soprou.